ENTREVISTA: Geruza Zelnys

Geruza Zelnys é uma força da natureza. Tem um riso largo, fala bastante – e bastante rápido – junta um assunto no outro e faz muitas coisas ao mesmo tempo: é professora universitária, facilitadora em oficinas de escrita criativa, publicou um livro ano passado e tem mais uma dezena na gaveta.

Fiquei semanas para resenhar seu livro, Esse Livro Não É Pra Você (Ed. Patuá, que você pode comprar aqui) e a verdade é que não consegui! Como é difícil dar uma opinião que faça sentido sobre um livro de poesia! Assim, minha opinião é quase a mesma nas três leituras que fiz – uma no lançamento, outra pra fazer a pauta dessa entrevista e outra quando estava tentando fazer a resenha propriamente dita: acho um livro de certa forma irregular: há poemas de que gosto muito e poemas de que desgosto muito. Mas a cada leitura, passo a gostar dos que desgostava e desgosto dos meus antes favoritos. Complicado né? Então, pra não ser injusto, deixo para você, caro leitor, ler e dar sua opinião. Depois coloca aí nos comentários o que você achou…

preview_esse-livrobaixaEu bati um papo com ela sobre o Esse Livro Não É Pra Você, o ensino de literatura e o que ela anda lendo (entre – várias – outras coisas). Divirta-se:

Quem é você e como você se envolveu na literatura?
Pergunta difícil feita assim à queima roupa. Quem eu sou? Eu sou Geruza, filha de meu pai e de minha mãe, neta de um escafandrista lituano de quem herdei o gosto por águas profundas e alguma vertigem de chão. Talvez por isso tenha me aproximado da literatura, embora pense que sempre foi ela a colar em mim, ora dando forma ao desejo, ora se moldando à necessidade. Desejo de encontro e necessidade de dinheiro, pois o que era lazer, fuga, paixão se tornou profissão: hoje sou professora, pesquisadora e crítica literária. Me tornar escritora nunca foi sonho meu, mas era o da minha mãe e de mais duas ou três pessoas especiais. Isso aconteceu assim, meio que como consequência de uma série de eventos, encontros e desencontros, enfim, como tinha mesmo de ser. E, agora que tive tempo de divagar um pouco, acho que posso responder com alguma propriedade sobre quem sou: um pedaço de bife sob o sol sangrando no asfalto.

Como foi fazer o Esse Livro Não é pra Você? Ele é um compilado de coisas que você escreveu ao longo do tempo, ou houve um momento em que você sentou para produzir especificamente para esse livro?
Nunca sentei para produzir para esse ou outro livro (tenho mais de 10 livros já escritos e não publicados oficialmente). Talvez agora que essa primeira publicação tenha me legitimado como “escritora”, eu passe a sentar para escrever com destinação. “esse livro não é pra você” é uma seleção de textos escritos junto com centenas de outros num período bem rente a esse (2013-2014). São mais próximos de retalhos, pensamentos, sobras de ideias e imagens que me aconteciam durante o período em que escrevi minha tese de doutorado e que não cabiam na forma acadêmica, é uma espécie de avesso ou lado noturno do que eu produzia durante o dia. São textos que nasceram de uma dor e desconcerto arrebatadores, o que faz deles poemas é um gesto autoral que os seleciona e reúne em um livro, mas até então nunca houve uma preocupação com a recepção leitora. Havia sim uma interlocução fortemente pontuada, mas que não se destinava à publicação.

Se você leu sabe que não é um livro que busca empatia, ao contrário, na seleção optei pelos textos mais afastados do trabalho literário – e, como crítica, você também pode imaginar a complexidade disso – a opção foi pelos textos que de algum modo estivessem mais colados à emoção do momento de produção, ao erro inaugural e ao fracasso, à completa devoção ao instantâneo, ao presente de uma dor irrepetível. Sou, antes de tudo, uma escritora que respeita as lágrimas e foram elas que ditaram a seleção dos poemas d’esse livro não é para você”. Publiquei atendendo ao pedido de amigos e leitores do meu blog e, também, por uma questão prática já que antes mesmo da publicação comecei a ministrar cursos de criação literária. A verdade é que adiei muito essa primeira publicação, mas, um dia, conversando com a Hilda… bem, mas isso já é outra história.

Você – principalmente no facebook e no seu blog – é bastante ativa e está sempre postando pequenos textos, poemas etc. Como você separa “isso é para o facebook” e “isso é para um livro”?
Eu não separo. Quando escrevo uma coisa linda demais penso “por que não dividir essa energia?”. Aí posto. Claro que faço isso com textos que se encaixem no suporte, no caso do facebook é mais por uma questão de tamanho porque não subestimo a leitura de ninguém, quem quiser ler está lá, como a réplica de um quadro replicado exposto na calçada. O meu original está no blog que, pra mim, é um espaço raro, pulsante de vida, lá as coisas estão abertas à mudança, as formas não estão fixas, elas podem estar num dia e noutro, não. O espaço blog é como se minha casa: janelas sempre abertas ao sol e à chuva. Depois há os livros e aí já não tem mais nada a ver comigo, a não ser a assinatura, rastro atestando que um dia estive lá.

Acontece que, antes de ser escritora, sou poeta e vejo muita beleza nas coisas (eu estou achando muito bonito esse nosso diálogo, por exemplo, pois a cada reflexão vou conhecendo uns lugares de mim que não havia visitado antes assim, com as luzes acesas). Costumo achar as coisas que escrevo muito lindas, mas, obviamente, a beleza para mim está ligada a algo que se depreende de um gesto muito próximo da intenção de verdade e, se eu consigo ler/tocar/presentificar essa intenção de verdade, não me interessa se o produto é algo bem acabado esteticamente ou uma forma capenga, eu vou respeitar e até me curvar a ele.

Queria que você falasse um pouco sobre o prêmio do Proac. O que ele foi exatamente e como ele vai te proporcionar outra publicação?
O prêmio Proac foi uma coisa linda, de deus mesmo, porque o escritor precisa de dinheiro; não só pra publicar, mas pra comer, beber cerveja com amigos e ficar um pouco ocioso, olhando na janela, esperando passar alguma história interessante entre as tantas que vão e vem na avenida; ou mesmo para comprar pão porque, não sei se você sabe, mas costumo colocar migalhas na janela e esperar os poemas pousarem, aí eu os fotografo e tento reproduzir em palavras. Enfim, voltando ao Proac, eu mandei para o concurso o projeto de um livro que me aconteceu no curso de Escrita Curativa – que é um curso que criei a partir da minha pesquisa sobre trauma e sobrevivência somada à minha experiência de escritura e que, agora, embasa meus estudos de pós-doutoramento sobre as potencialidades provocativas, educativas e terapêuticas das oficinas de escrita literária.

O livro todo nasce de uma frase que é “você tem uma tempestade tatuada nos olhos” e se chama “Tatuagem: mínimo romance”, é uma produção bastante experimental na forma e fala sobre pessoas e acontecimentos, como a maioria das histórias experimentais ou conservadoras. Tem muita memória lá dentro, lapidada claro!, que, pra mim, é o modo mais fácil de fazer com que algo não pareça tão bruto, raro e precioso. Já está quase pronto e eu acho ele muito bonito (pra variar!).

Alguns de seus poemas são – ou parecem – bastante pessoais. A escrita é de certa forma, um jeito de expor sua intimidade para que outras pessoas a vejam. Muita gente que escreve acaba nunca publicando por não querer romper essa barreira. Como foi – e como está sendo – esse processo no seu caso?
Eu nunca saio de mim, a não ser pra dar uns rolês na vida dos outros, mas volto logo pra casa porque não me sinto bem ocupando o lugar que, por direito, pertence ao outro e, pelo qual, só ele pode falar. Então, sim, meus poemas são bastante pessoais, assim como tudo o mais que escrevo em qualquer gênero ou suporte. Por isso, é sempre uma surpresa quando as pessoas leem e se identificam, ou quando vejo o milagre da transmutação que ocorre na leitura com a expansão dos sentidos. Acho tudo isso lindo!

É claro que a publicação de “esse livro não é pra você” me deixou apreensiva – a primeira coisa que a gente pensa é “o meu pai vai ler isso” ou “no natal meus tios vão perguntar sobre aquilo”, mas isso é uma ilusão, primeiro porque meu pai e meus tios nem vão ler o livro e, depois, porque a vida da gente não é tão interessante assim como pensamos. Então foi só um tico de apreensão porque, afinal, os textos já estavam no blog, que é um diário a céu aberto. De qualquer forma, eu não temo a exposição, ela é o lugar da política, onde podemos tomar partido e assinar, mesmo que precariamente, a responsabilidade sobre nossos atos e intenções. Por isso, entendo e não julgo sobre o medo da exposição. Mesmo porque, se pareço corajosa ao dizer isso, essa coragem também é pura ilusão, pois falo desde a literatura e, conheço muito bem, suas especificidades. A literatura fala, escondendo: o próprio da literatura é esse “há segredo” e a ele eu, leitor, não terei acesso, mesmo quando autor. Saber o funcionamento do discurso, literário ou não, às vezes é um saco porque, inevitavelmente, a gente acaba jogando com ele; algumas vezes a gente ganha, outras perde, mas quase sempre dá empate. Nesse sentido, por exemplo, é que foi muito difícil selecionar os textos para o livro buscando pelos poemas mais próximos do que eu chamo, por pura falta de um nome melhor, verdade: a verdade é sempre o segredo exposto-encoberto na linguagem.

Você também é professora, tanto no ensino superior quanto em oficinas. E a literatura – principalmente a poesia – é algo muito pessoal. Em que medida você acha que é possível ensinar a literatura?
O que se ensina da literatura, no meio acadêmico, é o que ela não é, mas o que fizeram dela: movimentos, procedimentos, especificidades estéticas, cânones, formas de representação, questões sobre crítica e recepção etc. Isso é perfeitamente possível de ensinar/aprender porque aí estamos no trânsito entre uma pedagogia da literatura e uma literatura pedagógica. O estudo da literatura, deixando meu lado acadêmico falar, só me importa quando oferece pontes para pensar algo para além dela, quando o que está em foco é a relação entre ela e outros saberes e sua implicação para um pensamento ético.

Já como mediadora de oficinas de escrita – eu prefiro o termo mediador ao invés de professor nesse caso – diferente de ensinar o que busco é inspirar, ou ainda, estimular o pensamento criativo. Isso só é possível com a criação de uma situação de afetividade, o que está mais ligado ao modo como se apresenta algum objeto do que com o objeto propriamente. Como você disse, a poesia é algo muito pessoal, mas também o são as narrativas: o olhar que se lança ao outro sai e retorna ao eu, é um movimento ininterrupto. Nesses espaços alternativos propícios a criação de subjetividades, as pessoas (des)constroem o conhecimento e, sendo assim, não aprendem a fazer literatura, mas são apreendidas por ela. O processo é xâmanico… você já viu a dança de acasalamento do pássaro do paraíso de fogo? Se não viu, procure ver, porque é mais ou menos aquilo.

O que vem por aí? No que você está trabalhando agora?
Tem certeza que quer manter essa pergunta? É que são tantas coisas… Hoje, por exemplo, estou criando as ementas para as disciplinas de pós-graduação e quem é professor-autor sabe que escrever uma ementa é muito parecido com escrever um poema: é algo absolutamente afetivo! Além disso, estou fortemente envolvida com o meu curso de Escrita Curativa: estou com uma bolsa (UNIFESP-CNPq) para me aprofundar nessa pesquisa, de modo que continuarei com as oficinas e as atividades extras em 2016, além da publicação do livro “Criaturas” (Ed. Patuá) que é uma antologia de textos escritos por alunos das 4 turmas que já fizeram o curso. Em 2016, também continuo como curadora do prêmio Mapa Cultural Paulista, portanto, envolvida com a seleção dos autores que serão premiados na fase estadual, gente incrível de 164 cidades de São Paulo escrevendo e reescrevendo a literatura. Quanto às produções literárias, 2 livros já estão no prelo: “9 janelas paralelas & outros incômodos” (Ed.Dobra & Patuá), livro de contos finalista no Prêmio SESC 2015, e o infantil “O pequeno xamã” (MovPalavras). “Tatuagem: mínimo romance”, premiado com a bolsa PROAC provavelmente também sairá em 2016. Há ainda o livro de poemas “Quintais” que não apresentei pra ninguém e acho que vou fazer isso em algum momento. No mais, continuo escrevendo no blog geruzazelnys.blogspot.com. Com isso sobra algum tempinho para a fé e a família, os amigos, as cervejas; mas não dá tempo pra outras coisas adiáveis como a morte, por exemplo.

E por fim, o que você está lendo no momento?
Eu não disse ainda que, se pudesse, não leria mais nada, né? Pois é. Eu leio muito por causa da demanda: todos os meus trabalhos envolvem leitura, então chega uma hora que a gente fica de saco cheio de tanto ler e se pergunta até que ponto isso importa. Porque a verdade é que depois que a gente aprende a ler, ler não importa muito porque se torna algo natural. Difícil explicar em tão poucas palavras, mas é como se tudo se oferecesse à leitura e aí você só precisa fazer um ou outro aprofundamento: não há nada que esteja nos livros que não esteja também fora deles, gravitando em torno das coisas. Bem, mas, além das leituras de trabalho, leio por prazer textos de base teórica e filosófica: Lévinas, Derrida, Agamben, Butler, que junto com textos assumidamente literários como Hilda Hilst, Herberto Helder, Manoel de Barros, Drummond, estou sempre lendo e relendo, pois o que eles dizem – e o que não dizem – corre nas minhas veias e acende toda sorte de desejos, são autores que me convocam.

No entanto, tenho me interessado demais pela literatura dos blogues e pelos novos autores que encontro nas esquinas de um link e outro, sou fortemente inspirada por esse inacabamento, essa escrita em processo, pelo risco de apagamento do traço, pela palavra soprada, enfim… Tenho lido pessoas deliciosas na Revista Raimundo, por exemplo, e nas editoras independentes, como a Patuá, que são pura potência em ebulição. Mas, acho que não foi bem essa a pergunta que me fez, parece que me empolguei e me excedi um pouco… Você quer saber o que estou lendo hoje? Bem, hoje, eu finalizei o livro “Myra”, de Maria Velho da Costa, que me deu a frase que entrego, como presente, pra você agora: “Odeio as pessoas que se metem com a literatura, e não a sofrem”.

One comment

  1. Cada vez amo mais.
    A alma nua e crua de Geruza traduz o que vai no mais recôndito de meu ser. Essa inteireza me toca profundamente.

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