ENTREVISTA: Jader Pires

Ele já lançou um livro de contos, escreve regularmente num site de sucesso, mas encontrou uma forma que muitos podem considerar ultrapassada pra divulgar seus textos e ideias: o bom e velho e-mail.

Eu já trombei algumas vezes com o Jader Pires, mas nosso contato acaba sendo mais pela internet mesmo. De longe, acompanho esporadicamente seu trampo no Papo de Homem; seu livro Ela prefere as uvas verdes está aqui na lista de leitura faz um tempo (em breve resenha por aqui); ele é irmão de um rapper da pesada, o Bino; mas quando ele anunciou que estava lançando uma newsletter literária, me interessei. Desde então acompanho o Meio-Fio, um periódico que chega por e-mail sempre com um conto, alguns pensamentos e links interessantíssimos.

Foi falando sobre isso, o livro e preferências literárias que eu bati um papo com ele. Divirta-se e aventure-se pelos links ao longo da entrevista pra saber mais sobre o autor.

jader_internaApresente-se, meu caro.
Meu nome é Jader Pires, sou editor do site PapodeHomem (maior site independente de conteúdo masculino no Brasil, com a ideia justamente de abrir novos diálogos com as pessoas sobre o masculino, além da cerveja/futebol/mulher) e escritor de contos e crônicas, autor do livro ela prefere as uvas verdes e da newsletter meio-fio.

Numa entrevista de divulgação do seu livro, você diz que é um “leitor tardio” e que estava “correndo atrás” da literatura…
Cara, sim. Na verdade eu comecei a consumir literatura com ímpeto e, depois, com frequência boa lá depois dos vinte anos. Quando comecei, o correr atrás era muito mais me deliciar com todas as descobertas de clássicos que eu poderia ler, Orwell, Laranja Mecânica, Huxley, muito Bukowski das banquinhas, O Grande Gatsby, Hemingway, John Fante – um dos meus favoritos – e o mundo vai se abrindo. Borges, García Márquez, Galeano, Neruda, Saramago, Kafka, Philip Roth, Virginia Wolf, Salman Rushdie, Amós Oz, Mia Couto, Agualusa, Murakami e Kawabata. O Brasil volta a fazer sentido, cai o ranço da época da escola, Machado vir aquela delícia sem fim, Raduan Nassar, Dalton Trevisan, João Ubaldo, as crônicas, o jornalismo literário. Acho que devo ter lido mais de 300 livros nesses, vai, 11 anos.

E o que falta ler?
Falta ler só o mundo todo (risos). Eu tive, provavelmente mais de uma vez, a tal crise se me deparar com a inevitabilidade de que não lerei tudo o que quero ou “devo” ler. O que acho que mais me arrependo de não ter avançado são os russos. Mas ando numa fase bem tranquila nesse sentido. Nos últimos tempos, ainda mais depois que bati no peito que eu seria, mais que produtor de conteúdo na Internet, mas um escritor, eu comecei a ler um pouco mais diversificado, arriscar mais pra ler autores mais novos, coisa fresca, Socorro Acioli, Alejandro Zambra, Ana Paula Maia, Cristóvão Tezza.

A coisa que mais agradeço é que, até hoje, eu sempre li por prazer e com prazer. Nunca caí na “maturidade” de ler de forma analítica ou matemática. Claro que percebo a maneira com que a literatura está sendo escrita, como o texto está sendo construído, mas sempre com sabor na boca, sempre xingando quando a pessoa manda bem numa frase, num trecho, num título, numa capa. Dito isso, e resumindo essa pataquada toda, acho que fui bem longe e nunca saí do mesmo lugar.

Tem livro de contos que é um apanhado de escritos ao longo do tempo, e outros feitos numa tacada só. Qual foi teu caso? Queria que você contasse um pouco como foi a feitura do Ela Prefere as Uvas Verdes.
Acho que dois ou três contos são antigos e reescritos. O resto foi num tapa. Um amigo me chamou para participar de um concurso de contos. No meio do processo, com um conto escrito (era preciso três contos pra inscrição), o mesmo amigo me mostrou um outro concurso, o prêmio Paraná de Literatura. O concurso de contos dava coisa de cinco mil reais, enquanto o de livro poderia render 45 paus. Perdendo um ou outro – coisa que aconteceu, hahaha – eu teria, numa mão, três contos e, na outra, um livro. Mandei tudo pro inferno e escrevia todas as noites, umas quatro horas por noite. Saíram treze contos de perdas e encontros, uma temática recorrente nos meus textos.
Escrever sobre o cotidiano tem seus prós e contras. Enquanto sua matéria-prima tá ali, ao seu alcance – e ao alcance de todos – você pode acabar esbarrando em questões como alguém se reconhecer nos textos, ou você acabar expondo sua intimidade no que você escreve. Como você vê essa questão?
Eu lido bem com o caldeirão formado de lembranças e impressões. Me exponho em prol do texto, quando ele pede. O que me importa sempre é ter um conto bonito, uma crônica bem escrita, coisa que chacoalhe quem está lendo. Até porque a coisa toda é tão complexa que fica até difícil eu tentar separar. Um exemplo prático é que, no primeiro conto do meu livro, tenho um pai que lida com uma situação que eu nunca tive que lidar. Eu fiquei dias literalmente rodando em volta da mesa da minha cozinha pensando “como será que é sentir isso? Como seria lidar com isso?”. Eu não conseguia botar no papel o que precisava ser. Eu fui me aproximando da situação, deixando ela tomar conta de mim, sei lá, quase que como um trabalho de ator, até que veio a emoção à flor da pele mesmo. E foi batata, saiu como eu queria e como deveria ser. Estamos falando de algo que nunca passei e que foi provavelmente a coisa mais pessoal que eu já escrevi.
Que diferença você vê – principalmente no processo – do que você escreve no PdH e o que você escreveu para o livro, por exemplo?
Eu escrevo contos e crônicas no PdH, mas o livro foi um processo bem diferente, um outro tipo de tempo para escrever, uma plataforma completamente diferente de lidar, seja no tamanho de texto ou na complexidade da escrita. Eu amo conseguir escrever literatura na Internet, pessoalmente me orgulho de procurar escrever literatura onde reinam os memes e gifs. É um desafio manter o cara atento e empolgado até lá embaixo. E escrever o livro foi outro rolê, no caminho de deixar mesmo a história de cada conto me levar até onde ela queria chegar. De verdade. Eu sempre pensei que era papinho de escritor descolado esse lance de que a história que dita o ritmo ou que as personagens tem vida própria. Mas não é que é assim mesmo que funciona!? Eu não conseguia terminar antes de o conto me deixar terminar e eu não conseguia levar as pessoas dessas histórias onde elas não queria ir. É um processo maluco pra cacete. E delicioso.
Achei muito interessante a ideia do Meio-Fio. Como surgiu a ideia de aproveitar um meio pouco usual pra divulgar seus escritos?
Eu descobri tarde que eu tinha um público, que eu tinha leitores que entravam no site que eu edito pra ler o que eu escrevo. Só depois de tempos depois de lançar meu livro e começar a me levar mais a sério que eu fui sacar isso. Comecei a escrever religiosamente às sextas-feiras, em duas colunas no PdH, a Do Amor, onde eu desconstruo a ideia do amor romântico a cada quinzena e a Cotidiano, que acabou virando a Meio-Fio, minha newsletter semanal, e aí a coisa foi tomando muita forma, muito comentário, muita gente voltando, muito desconhecido me adicionando nas redes sociais pra falar que me lia e me acompanhava e a porra toda.

Hoje sabemos que o Facebook não é uma boa plataforma pra gente juntar as pessoas. Lance de algoritmo e o escambau que faz com que sua fala não chegue até as pessoas. Uma newsletter foi a forma que vi de poder falar efetivamente com que assinar a danada. Eu consigo espalhar com o PdH a minha escrita e, para os mais chegados, eu consigo falar no tete-a-tete na Meio-Fio. E tá rendendo demais! São dezenas de e-mails todas as semanas, conversas e sugestões e críticas. Tudo muito construtivo, eu chego nas pessoas e elas chegam em mim. Já tem mais de dois mil assinantes e metade abre todas as edições com um baita compromisso. Lindo de ver, cara. Lindo.

Qual é um conto que você acha que todo mundo deveria ler?
Gente, leiam o primeiro conto do meu livro, O Filho do Carnaval. Tem o conto completo aqui nesse link.

Já tem algum novo livro engatilhado?
Sim! Eu tava com um segundo livro de contos na ponta dos dedos, mas veio um daqueles dias que culminou noutro daqueles dias que desembocou em um primeiro romance que escreverei agora no recesso de final de ano. Enquanto a pequena trabalha, eu terei uns dias de folga pra passar o dia de cueca em casa com folhas no chão organizando a brincadeira toda. Me desejem sorte, hahaha.

E o que você está lendo no momento?
Eu li A Amiga Genial, da Elena Ferrante. Uma delícia! E tô no segundo de três livros do mexicano Juan Pablo Villalobos. Foi o Festa no Covil e, agora, o Se Vivêssemos em um Lugar Normal.

 

Imagens: Reprodução.

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