ENTREVISTA: o biógrafo de uma Dama do Samba

Escrever a biografia de um monumento da música brasileira em apenas seis meses, com entrevistados com a idade avançada e, como ele mesmo gosta de dizer, com a “memória vacilante”. Esse foi o desafio do jornalista Lucas Nobile, autor de Dona Ivone Lara: a Primeira-Dama do Samba (Sonora Editora/Sambabook), lançado este ano.

Bati um papo com o Lucas sobre o processo de criação do livro e sobre as diferenças no trabalho de jornalista e biógrafo, que você confere abaixo. A minha opinião sobre o livro você encontra aqui. Boa leitura.

Reprodução/Acervo pessoal
Lucas (em pé, à esq.) muito bem acompanhado no lançamento do livro, no RJ.

Primeiro, conta pra gente quem é você.
Sou jornalista, formado pela Faculdade Cásper Líbero, e nos últimos anos trabalhei para veículos como O Estado de S. Paulo (Estadão) e Folha de S. Paulo. Já colaborei para veículos e instituições como Bravo!, Rolling Stone, Instituto Moreira Salles, Itaú Cultural, Auditório Ibirapuera, Clarín e Prêmio da Música Brasileira. Sou autor de livretos da Coleção Folha Tributo a Tom Jobim, mais especificamente sobre os álbuns “Tide”, “Edu & Tom” e “Antônio Brasileiro”.

O livro da Dona Ivone Lara é parte de um projeto maior…
Sim, é parte do Sambabook, um projeto da Musickeria que além da “discobiografia” em livro, conta com DVD, CDs, livro de partituras e aplicativo para as pessoas poderem tocar as músicas de D. Ivone, no esquema “play along”. Esta é a quarta edição do projeto, que já homenageou anteriormente João Nogueira, Martinho da Vila e Zeca Pagodinho. Também neste ano, graças ao livro, fui convidado para ser o consultor da Ocupação Dona Ivone Lara, exposição que recebeu mais de 30 mil visitantes no Itaú Cultural.

Como e quando você percebeu que o seu negócio era música, mais especificamente a música brasileira?
Eu toco cavaquinho e banjo desde os meus 14 anos (hoje, tenho 31) e acabei tendo uma formação informal muito ligada ao samba e ao choro. Antes disso, dos 8 aos 13, estudei piano clássico, aquela história de satisfazer um desejo dos pais, que achavam o instrumento bonito, coisa e tal. Na época eu já andava com a cabeça no samba. E desde pequeno sempre tive interesse em conhecer a história dos músicos e dos discos. Quando em me encantava com algum álbum, logo corria para devorar o encarte ou buscar mais informações sobre aquele LP ou CD, era algo como: “Cara, quem é que está tocando este repique de mão nesta faixa?” ou “Que instrumento é este nesta música?”. Tive, este tipo de arrebatamento, de espanto quando fui descobrir o que era um clarinete ao ouvir o disco “Mistura e Manda”, do Paulo Moura, ou quando descobri o que era um violão tenor dinâmico em várias gravações do lendário Zé Menezes em álbuns do Fundo de Quintal. Já adolescente, eu tinha “decidido” que gostaria de ser jornalista, mas nem pensava em aliar minha paixão pela música ao futuro trabalho. Decidi que meu TCC (Trabalho de Conclusão de Curso) na Cásper Líbero seria sobre música. Ao lado de dois grandes amigos, o André Toso e o Roberto Paes, fiz um livro-reportagem sobre a parceria do Vinicius de Moraes com o Toquinho. A gente escolheu aquele tema por achar que os últimos dez anos da vida do Vinicius mereciam ser contados de maneira mais detalhada. Logo que saí da faculdade, entrei no Estadão e fui trabalhar numa editoria do jornal chamada “Serviços Internacionais”. Depois eu acabei entrando no Caderno 2 para cobrir música brasileira e estou nessa área até hoje. Tem aquele clichê de “quando se trabalha com o que gosta, as coisas ficam mais fáceis”. Não digo que fique necessariamente mais fácil, mas é meio por aí, não tenho do que reclamar. Hoje eu tenho muito mais convicção de que quero trabalhar com música do que com jornalismo.

Teu livro foi escrito em pouco tempo, mas tem uma lista bem grande de entrevistados e algumas páginas de bibliografia consultada. Conta um pouco do processo de organização que você teve durante a produção.
Pois é, foram apenas seis meses para fazer o livro inteiro. O que facilitou, e muito, foi o fato de eu conhecer toda a discografia (que não é muito extensa) de Dona Ivone Lara. Como o tempo era curto, a chamada “pré-pesquisa” tinha de ser feita com muito rigor para facilitar o processo, saber quem de fato era essencial ser entrevistado, quais histórias não podiam ficar de fora etc. Assim, nesta pesquisa inicial eu reouvi todos os discos da Dona Ivone (os “de carreira” e os em que ela fez participações), li mais de 40 livros ligados à trajetória dela, ao samba, ao choro e à música brasileira de forma geral. E consultei mais de 10 mil edições de jornais e revistas. Depois disso, parti para as entrevistas. Como eu tenho dito por aí, Dona Ivone, pelo avançado da idade, já está com a memória um tanto quanto vacilante. Portanto, eu sabia que não podia centrar o foco da apuração em conversas apenas com ela. E também não queria reproduzir um monólogo, queria contar esta história da maneira mais polifônica possível. Por isso acabei entrevistando 60 personagens. O fato de os livros do Sambabook serem idealizados no esquema “discobiografia” – contar a história do artista por meio de seus discos – ajudou um pouco na hora de pensar na divisão dos capítulos, acabou ficando meio cronológico, foi um facilitador. Mas ainda assim era algo desafiador.

Numa biografia, embora seja você o contador da história, essa história é de outra pessoa. Quais as diferenças que você vê entre o trabalho de biógrafo e de um escritor de ficção?
Sem dúvida, existem diferenças entre uma biografia e uma ficção. A principal delas é o compromisso com a verdade, com a realidade, com os fatos. Claro que em uma biografia o autor faz opção por alguns recortes, por contar algumas histórias que ele julgue extremamente relevantes. Por exemplo: a história de Dona Ivone Lara existe. Eu a contei de um jeito, se você fosse contá-la, certamente o faria de maneira diferente da minha, usaria outras palavras, optaria por algumas passagens em detrimento de outras. Isso é inevitável, mas o grosso da história e, principalmente, os fatos seriam basicamente os mesmos. Isso, claro, se fôssemos escrever a história da personagem para o mesmo projeto, a tal “discobiografia”. Outro exemplo: além do meu, existem outros três livros especificamente sobre Dona Ivone Lara. A história de Dona Ivone está ali, em todos, mas cada um dos autores a contou por ângulos diferentes. Quando se trata de uma biografia, de um livro-reportagem, o autor é um operário da notícia, um investigador dos acontecimentos. Ele apura milhares de informações, colhe depoimentos, ouve versões e depois as cruza. Enfim, sempre com o compromisso com aquilo que se chama de “realidade” e com as histórias que, por sua vez, podem se consolidar como História. Já o autor de uma ficção tem um único e fascinante compromisso: ele presta contas à própria imaginação, sua fidelidade é apenas com o inventado. O genial poeta Manoel de Barros, autor da célebre frase “tudo que não invento é falso”, tem uma outra definição que eu acho de uma beleza devastadora: “Invenção é uma coisa que serve para aumentar o mundo”.

E quais as diferenças de escrever para um jornal ou revista e escrever um livro?
Eu sempre fui acostumado a escrever para jornal, em espaços curtos, sempre com tiro curto. Escrever um livro de 250 páginas é bem diferente, você tem que equilibrar as informações, algo como “ah, essa história fica melhor ser contada mais adiante etc”. E outro fator importante: você tem que trabalhar e cuidar muito do ritmo do texto quando vai contar uma história de fôlego, não adianta despejar um caminhão de informação num capítulo e deixar os outros mais descobertos, carentes de histórias saborosas. Enfim, é um trabalho árduo, mas muito prazeroso. Gostei muito de fazer e espero poder ter oportunidades de escrever outros livros.

Durante essa divulgação do livro, você frequentemente tem passado do papel de entrevistador para o de entrevistado. Como tem sido essa experiência?
Pois é, momentaneamente passei para o outro lado do balcão. E vejo isso com naturalidade, como parte da divulgação do livro. O trabalho foi feito com extrema responsabilidade e, depois de pronto, você sonha com que ele chegue ao maior número possível de pessoas. Nas entrevistas, tenho falado bastante do livro, mas sempre chamando a atenção para o Sambabook como um todo. O projeto é documental, trata do artista por completo, com vídeo (DVD), áudio (CDs), partituras e a biografia. Eu costumo dizer que um país sem memória é um país sem cultura e sem história. As biografias – em qualquer formato, livro, documentário, websérie etc – são de fundamental importância para manter a história viva, elas têm um papel determinante na construção da identidade de um país. Quando digo disso, obviamente não me limito às biografias de personagens do meio cultural e artístico, falo de maneira mais ampla. Da mesma forma que é importante que se publiquem biografias de Dom Pedro, Getúlio Vargas, João Goulart, é indispensável que se escreva sobre Batatinha, Bidu Saião, Assis Valente, Nelson Ned, Candeia, Aracy de Almeida, Mussum, Guiomar Novaes, Donga, Radamés Gnattali, Mano Décio da Viola, entre tantos outros.

Qual é uma biografia que você acha que todo mundo deveria ler?
Acho Estrela Solitária, biografia do Garrincha escrita pelo Ruy Castro, um livraço. Ruy é um mestre da apuração e da escrita. Mas eu fico com a biografia do Noel Rosa, escrita pelo João Máximo e pelo Carlos Didier. Recomendo muito, não só para quem gosta de música brasileira, de samba. É uma pena que este livro lançado na década de 1990 nunca mais tenha sido reeditado. Tem toda uma história que envolve processo judicial da família do Poeta da Vila contra os autores. Sem entrar no mérito se a obra fere a honra e a privacidade de Noel e de seus familiares, mas acho muito lamentável que o público seja privado de conhecer a história de um dos maiores compositores da música brasileira, patrimônio da cultura do país. Infelizmente, hoje quem quiser ler vai ter que desembolsar uma grana em sebos ou caçar algum arquivo em pdf por aí. Mas vale a procura.

Por fim, o que você está lendo no momento?
Acabei de ler Leão de Chácara, do João Antonio. Já tinha lido outras coisas dele, mas faltava este. É um livro de contos, incluindo o conto em que o autor trata dos leões-de-chácara, esses personagens riquíssimos que trabalham na porta de puteiros. A linguagem e o fluxo de consciência do João Antonio são coisas de outro planeta. Neste livro tem um conto sobre um personagem espetacular, o Paulinho Perna Torta. E o autor descreve muito bem o universo tenso da Boca do Lixo, de ruas como Aurora, Andradas, Gusmões, Vitória, ali no centro de São Paulo. Esses dias, passei por ali com minha namorada (que foi quem me emprestou este livro) e comentávamos como tudo o que o João Antonio escreve neste livro dos anos 1970 ainda é absurdamente atual. Ele, como poucos, captou com maestria e picardia (palavra de que ele gostava tanto) o ambiente da noite, da malandragem, o cotidiano e a cabeça dos desvalidos, dos desviados, daquela “gente descarrilada”, como ele eternizou. Se rolasse uma “pelada literária”, aquele futebolzinho de rua, mas só com escritores, e eu ganhasse no par ou ímpar, acho que escolheria o João Antonio. No meu time ele jogaria com a 10.

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